Você conhece essas 5 mulheres lendárias da Idade Média?

Iniciada no ano de 410, com a queda do Império romano do Ocidente e tendo o seu fim em 1453 com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, a Idade Média foi um período de 1000 anos que até hoje vem influenciado a literatura fantástica nas vertentes da Fantasia, do Gótico e mesmo da Ficção Científica.

Roma caiu em agosto de 410 A.D. após ataques de povos diversos.

Esse legado é o resultado de diferentes fatores que marcaram este período em todas as esferas, incluindo, no nosso caso, a cultura. Dentre estes fatores, destaco:

  • a convivência/conflito entre crenças e práticas religiosas pré-cristãs e o Cristianismo
  • diferentes invasões de povos oriundos do norte do continente europeu e do Oriente a Europa cristã, fomentando o contato com outras culturas e crenças
  • a permanência de crenças milenialistas que, como tais, pregavam o Apocalipse
  • seguidas ocorrências de doenças epidêmicas, como a Peste Negra   

E as mulheres na Idade Média?

Neste contexto chama a atenção o fato de que, ao lado de outros grupos minoritários que viviam na sociedade católica como os judeus, as mulheres foram catalizadoras do imaginário medieval, sendo consideradas criaturas que possuíam uma estreita ligação com o sobrenatural.

Por esta razão, por conta de sua natureza, elas eram vistas e tratadas com desconfiança e mesmo medo por parte dos homens. 

Este olha especial sobre o feminino fica claro quando se percebe que apesar de que os tribunais da Igreja Católica da Idade Média e as bulas papais tenham combatido a heresia praticada por ambos os sexos, a maioria esmagadora dos réus e condenados eram mulheres.

 

Por exemplo, com base em arquivos judiciais no Norte da França entre meados do século XIV e finais do século XVII o historiador Jean-Michel Sallman levantou que em meio a 288 casos de bruxaria, havia uma proporção de 82 mulheres para cada 100 casos.

Lembrando que no século XV a perseguição às bruxas alcançaria o seu apogeu, com o maior registro de fogueiras ocorrendo entre 1455-1460 e 1480-1485.

O mistério feminino

A mulher sempre foi um mistério para o homem. A capacidade de carregar uma nova vida levou o ser feminino a ser associada, desde o início da civilização humana, a Natureza.

Esse vínculo a imbuiu de uma ligação com o mistério, expresso nos dons da profecia, da cura, e também da manipulação de meios para prejudicar outros.

Como conseqüência, o homem se definiu como racional e apolíneo e a mulher como irracional, instintiva, ligada ao inconsciente, ao sonho e a lua.

A deusa Kali, na Índia, reflete a ligação da vida e morte que cerca a mulher.

Essa mesma lua promoveu a relação da mulher com a noite e ao desconhecido da morte. A contradição dela é a contradição de um ser paradoxalmente vinculada à vida e a morte, e essa visão alcançou o seu auge na idade Média.

Falei disso no post sobre a relação do mito do vampiro com o feminino, que você pode ler aqui.

Dentro deste quadro, veja abaixo cinco mulheres lendárias da Idade Média que revelam a natureza arcana do feminino neste período histórico:

 1. Banshee, o lamento mortal

A etimologia da palavra “Banshee” no irlandês antigo ban síde (mulher fada) não deixa duvidas sobre suas raízes na mitologia do povo celta.

A representação da Banshee varia conforme a narrativa em que ela aparece. Mas na maior parte dos casos relatados na Idade Média ela é apresentada como uma mulher velha vestida de cinza ou branco e que é vista lavando as roupas sujas de sangue de alguém que faleceu. Seus olhos são vermelhos em virtude dela sempre estar chorando.

Todavia, independente da aparência, o traço comum as banshees é o grito ou lamento que elas emitiam na morte de membros de famílias tradicionais da Irlanda, como aquelas cujo nomes são precedidos por O’ ou Mac. 

Seus gritos também podiam profetizar que algum membro dessas famílias encontraria a morte. Sendo assim, ninguém queria ouvir uma Banshee gritando!

As lendas ainda dizem que quando regentes e bispos morriam era comum ouvir o lamento de várias banshees ao mesmo tempo.  

2. Lilith, a primeira mulher de Adão

Falei dessa personagem em um dos primeiros vídeos do Canal FANTASTICURSOS no Youtube dentro da série “Lendas Medievais”. Para assistir, clique aqui.

Pés de coruja e hábito noturnos ligam o feminino com a noite

A primeira aparição de Lilith aconteceu no épico babilônico Gilgamesh (2000 a.C.) como uma prostituta estéril e com seios secos. Seu rosto era belo, mas possuía pés de coruja (indicativos de sua vida noturna).

Mas é no Talmude hebraico (6 a.C.) que sua história se torna mais interessante ao ser apresentada como a primeira mulher de Adão

Na narrativa registrada no Talmude, Lilith se desentendeu com Adão sobre quem deveria ficar na posição dominante na hora do sexo e o abandonou.

Deus teria então enviado três anjos a caverna onde ela se refugiou para convencê-la a retornar para Adão, Todavia, diante da recusa de Lilith, ela foi amaldiçoada a ver seus filhos morrerem.

Na outra versão, Lilith teria seduzido os anjos e gerou a raça de demônios que atormentam a humanidade desde então.

As narrativas, no entanto, convergem em um mesmo ponto: Para se vingar de Deus e de Adão, Lilith passou a sugar o sangue e a estrangular todos os descendentes de Adão enquanto eles ainda são crianças.

Na Idade Média em particular todas as complicações relacionadas à maternidade, tais como, aborto, dores e sangramentos, eram atribuídos a Lilith e seus demônios.

Também se acreditava que caso um homem recém-casado tivesse emissões noturnas isso seria um sinal da presença da vampira.

Neste caso Lilith também era um súcubo, ou seja, um demônio em forma feminina.

3. Melusina, a fada da água

Um tema recorrente na literatura da Idade Média, presente em diversas narrativas, era o de um espírito da água feminino encontrado em uma fonte ou rio sagrado e que se casa com um mortal com a condição de que este obedeça a uma proibição colocada pela mulher sobrenatural.

Por vezes, a Melusina também apresentava uma cauda bifurcada ou asas que facilitavam sua fuga quando não queria ser vista por humanos.

Descrita como uma bela jovem que da cintura para baixo tem cauda de serpente ou de peixe (semelhante a uma sereia), a história da Melusina encontrou sua versão maios conhecida no romance Mélusine ou la noble histoire de Lusignan (1392-1394), de Jean d’Arras.

Nesta obra a Melusina se casa com Raymondin, senhor do Poitou, com a condição de que este nunca a veja na hora do parto.

Dessa união, que durou 25 anos, resultou um ramo genealógico no mundo dos humanos com a linhagem dos Lusignan, formada por dez filhos valentes.   

4. Joana, a Papisa

Uma das mais controversas lendas medievais é a da Papisa Joana, ou seja, uma mulher que teria se tornado a maior autoridade da Igreja Católica Medieval por três anos durante os anos de 850 e 1100.

A lenda surgiu no final do século 9 e relata que uma jovem, ora descrita como oriunda de Constantinopla, hoje Istambul, ora descrita como natural de Mainz, na Alemanha, se infiltrou na igreja disfarçada como um homem por estar apaixonada por um monge.

Assumindo a identidade do monge Johannes Angelicus ela se instalou no Mosteiro de São Martinho e se tornou, após anos, o Cardeal João, o Inglês.

Papisa Joana dando conselhos

Por sua grande sabedoria o “Cardeal João” teria sido eleito Papa após a morte de Leão IV em 855.

Segundo a lenda, ela manteve um caso com um camareiro papal e, mesmo grávida, conseguiu enganar a todos por conta das vestimentas largas da função eclesiástica.  

Um dia, porém, enquanto liderava uma procissão que ia do Coliseu até a Igreja de São Clemente ela sentiu as dores do parto e deu à luz diante da multidão.

O povo, indignado pela profanação ao Trono de São Pedro, teria amarrado a papisa em um cavalo e a apedrejado até a morte.

 O Vaticano nunca confirmou essa história, mas a lenda de Joana teria gerado um rito na escolha dos Papas em que o candidato tem de sentar em uma cadeira com abertura no centro e ter as suas partes intimas apalpadas

Apenas após a confirmação de que o Papa eleito é homem é que ocorre a afirmação Habemus Papam

5. Viviane, a Dama do Lago

Presença contante na matéria da Bretanha, centrada nas aventuras do Rei Arthur, a Dama do Lago é conhecida pelos nomes de Viviane ou Nimue, a maga do bosque da Brocelianda.

Mas como tudo o que se relaciona a Arthur, a origem da Dama do Lago apresenta versões que muitas vezes se contradizem ao longo da Idade Média.

Segundo uma das narrativas, Viviane era filha de um senhor de terras que conheceu e se apaixonou pelo mago Merlin. 

Merlin teria ensinado as artes da magia a jovem e lhe construído um castelo de cristal no fundo de um lago no qual a jovem passou a habitar após Merlin a transformar em uma elemental da água, de forma a preservar a bela dos olhares profanos. 

Viviane também teria adotado o jovem Lancelot após a morte de seu pai. Por conta disso, ao ser apresentado na corte do Rei Arthur ele assumiu o nome de “Lancelote do Lago.” 

A importância de Viviane para o imaginário medieval também está no fato de ela ser a guardiã da mítica espada Excalibur, com a qual Arthur conseguiu unir a Bretanha.

Após ser mortalmente ferido na durante a batalha de Camlann em 537, o rei ordenou que a espada fosse devolvida a Dama do Lago e desde então ela aguarda o novo salvador do povo bretão.

Na obra As Brumas de Avalon (1983), dentro uma proposta pós-moderna, a escritora Marion Zimmer Bradley apresenta Viviane como uma suma sacerdotisa da ilha mágica de Avalon.  

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Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

CHEVALIER, Jean, gheerbrant, Alain. Dicionário de Símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

LINDAHL, Carl; MCNAMARA, John; LINDOW, John. Medieval Folklore: A Guide to Myths, Legends, Tales, Beliefs, and Customs. Nova York: Oxford University Press, 2000. 

RANKE-HEINEMANN, Uta. Eunucos pelo Reino de Deus: mulheres, sexualidade e a Igreja Católica. 3. ed. Trad. Paulo Froés. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1996.

RICHARDS, Jeffrey. Sex, Dissidence and Damnation: Minority Groups in the Middle Ages. London: Routledge, 1995.

SALLMAN, Jean-Michel. La bruja. In: DUBY, Georges, PERROT, Michele (Org.). Historia de las mujeres. Vol. 3: Del Renacimiento a la Edad Moderna. Madrid: Taurus, 1992.

SILVA, Alexander Meireles da. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de literatura e cultura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2005.

 

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

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