30 anos depois… você está no mundo cyberpunk dos anos 80?

Em 1987, há exatos trinta anos, Robocop: o policial do futuro estreou no Cinema norte-americano trazendo por trás de seu roteiro de ação e violência extrema um debate sobre a relação Homem x Máquina  na sociedade ocidental de fins de século vinte.

Muito melhor que a refilmagem do século 21.
ROBOCOP (1987)

Essa visão foi compartilhada por outros filmes dos anos 80, tais como Blade runner: o caçador de androides (1982) e Exterminador do futuro (1984).

O tempo só fez o filme ficar melhor
Clássico cult dos anos 80

Essa recorrência ao tema do impacto da tecnologia sobre a humanidade também se fez presente na Literatura e também no mundo das Histórias em Quadrinhos da época.

Clássico dos filmes de viagens no tempo
Exterminador modelo T-100

O ponto em comum a todas essas produções foi a percepção de que um novo subgênero da Ficção Científica ganhava força no período, demonstrando que os avanços da tecnologia não representaram avanços da sociedade como um todo.

Livro cyberpunk que influenciou Matrix (1999)
Neuromancer (1984)

30 anos depois de Robocop, e considerando o impacto da tecnologia no nosso meio, fica a pergunta:

Estaríamos em 2017 no mundo do Cyberpunk

Ghost in the Shell
Ghost in the Shell (1989)

O que é Cyberpunk?

Focando na ideia do High Tech e Low Life, ou seja, Alta Tecnologia e Baixa Qualidade de Vida, o Cyberpunk trata de narrativas onde os avanços e inovações tecnológicas convivem com a deterioração social.

Elysium (2013) mostra bem o contraste entre o High Tech e o Low Life.

Estas duas ideias estão presentes nos termos que compõem a palavra Cyberpunk.

Cyber-

Originado na palavra Cybernetics (Cibernética), Cyber- se refere a um futuro onde forças políticas e econômicas são globais em virtude da tecnologia empregada. 

Frequentemente estes locais de poder se apresentam separados e mesmo isoladas dos segmentos desprivilegiados do mundo cyberpunk.

Cyber- também se refere a manifestação no corpo da ligação entre homem e tecnologia.  

punk

O termo -punk tem origem no cenário musical dos anos 70, marcado pela crítica forte a cultura dominante e as instituições de poder.

O -punk, enquanto postura cultural, é antiautoritário, pessimista, anárquico e igualitário.

O Cyberpunk antes dos punks 

Ainda que o Cyberpunk tenha sua origem ligada as últimas décadas do século vinte, sua presença pode ser traçada já nas décadas de 50 e 60 do século vinte. Antes mesmo de receber esse nome.

A série ainda não foi lançada no Brasil
Capa da primeira edição de 1946

Nos anos da década de 1950 esse momento inicial está na série Gommerghast (1946-1956), de Mervyn Peake, em que Fantasia, Gótico e Ficção Científica se encontram em uma mesma obra.

O livro foi lançado em 1968 e serviu de base para o filme de 1982

Ainda na década de 50 e também ao longo dos anos de 1960, Philip K. Dick também explorou em seus contos e romances as angustias do homem moderno frente as mudanças de uma sociedade cada vez mais amparada na tecnologia e como essas mudanças afetam sua noção da realidade e de ser humano.

Bem-vindo a Matrix

A palavra Cyberpunk surgiu na edição de novembro de 1983 da revista Amazing Science Fiction com o conto “Cyberpunk”, de Bruce Bethke.

O termo foi posteriormente popularizado pelo editor Gardner Dozois para nomear as histórias de Ficção Científica de William Gibson e Bruce Sterling na década de 80, como a Trilogia do Sprawl.

Neuromancer é comumente aceito como o marco inicial deste subgênero da Ficção Científica nos anos 80 e apresenta os elementos que se tornaram padrão desta literatura:  

  • Governos opressores;
  • Mega corporações transnacionais;
  • Sistemas de Inteligência interligados;
  • Anti-heróis moralmente questionáveis e marginalizados. 

A década do Cyberpunk

Mas quais razões, afinal de contas, levaram o Cyberpunk a se tornar a principal vertente da Ficção Científica em fins do século vinte?

A crise do Petróleo nos anos 70 criou uma profunda crise econômica no Ocidente.

O Cyberpunk é o resultado de um série de eventos e fatores das décadas de 70 e 80 que se refletiram na ascensão de uma visão mais pessimista da sociedade.

Dentre estes fatores, destaco:

  • O aprofundamento da contestação do sistema por diferentes grupos sociais minoritários;  
  • A crise do Petróleo, que gerou uma profunda crise econômica ao longo da década de 70;
  • A ascensão de governos neoliberais na Inglaterra (Margaret Thatcher) e nos Estados Unidos (Ronald Reagan) que afetaram a classe trabalhadora e aprofundaram as desigualdades sociais;
Reagan e Thatcher

A Ficção Científica, como sempre, refletiu as grandes questões de seu tempo de forma crítica e esse cenário de pessimismo se aliou aos avanços na área da informática e da cibernética. O resultado desse caldeirão: o Cyberpunk.

O início dos anos 80 foi também o começo de uma era digital que rapidamente se disseminou

Mas até que ponto o mundo de hoje, se tornou o mundo de, por exemplo, Robocop?

O mundo Cyberpunk de agora

Sendo um produto hollywoodiano, vamos pensar, com base no roteiro, como Robocop reflete a realidade dos Estados Unidos de hoje e, mais próximo a nós, a realidade do Brasil.

1. Cenário

Filme: Em Robocop vemos a cidade de Detroit, de um hipotético Estados Unidos da América no futuro, deteriorada pela criminalidade, trafico de drogas e corporações empresariais corruptas e gigantescas.

Realidade: O escritor Ray Bradbury, autor da distopia Fahrenheit 451 (1953) dizia que não escrevia Ficção Científica para prever o futuro, mas sim para evitá-lo.  

Mas, como não pensar que o mundo distópico do filme marcado pela violência extrema, roubos, estupro e trafico de drogas não se assemelhe ao encontrado nas grandes metrópoles brasileiras? 

O mesmo ocorre com as corporações empresariais cyberpunks caracterizadas pela corrupção, como as envolvidas na Operação Lava Jato no Brasil, ou as companhias norte-americanas que agora tem seu raio de ação ampliado com o governo do megaempresário Donald Trump.

2. Mídia

Filme: A mídia do mundo cyberpunk de Robocop é tendenciosa, manipuladora, alienadora e conivente com o sistema opressor.

As propagandas veiculadas refletem o consumismo, a falta de atendimento de saúde para todos, as consequências da agressão ao meio ambiente (veja o vídeo acima).

Um exemplo disso, como se vê abaixo, é o apelo a violência diante da falta de confiança na polícia, como a do sistema anti-furto “Magnavolt”.

Realidade: Se é desnecessário apontar as semelhanças com o Brasil, ainda mais na atual polarização política em que está a nossa sociedade, a mídia tradicional dos Estados Unidos também não fica atrás, como bem mostra a cruzada do Wall Street Journal em minar a audiência do YouTube com a acusação de que a mesma veicula conteúdos racistas e anti-semitas.  

3. Marginalização da população

Filme: Aproveitando da situação de caos, a megacorporação OCP (Omni Consumer Products) assina um acordo com o governo para combater a violência tendo em mente, na verdade, acabar com a parte pobre de Detroit para construir um novo empreendimento, a utópica Delta City.

A OCP passa a controlar a força policial e implementa sua estratégia cibernética para combater o crime: Robocop.

Os policiais, todavia, não gostam da administração da OCP e ameaçam parar suas atividades.

Realidade: A realidade de desemprego em Robocop encontra seu paralelo no Brasil, onde a crise econômica levou até mesmo a Polícia a demonstrar seu descontentamento.

A greve da Polícia no Estado do Espírito Santo, ocorrida em fevereiro de 2017, e a situação de caos vivida pela população nesta situação evidencia o lado -punk do cyberpunk focando na parte da sociedade não agraciada com os benefícios do avanço tecnológico.

Nos Estados Unidos, por sua vez, a eleição de Donald Trump ameaça os avanços sociais da administração de Barack Obama

4. A opressão do sistema

Filme: Robocop ocupa o duplo lugar, comum nas distopias e no Cyberpunk, do agente do sistema dominante ou integrante do sistema, que sai de sua alienação e se revolta contra a opressão.

Ainda que atue contra os bandidos, é perceptível o espaço de Robocop como o lado cyber- que oprime a população -punk do filme.

Enquanto permanece como Robocop, ele a corporificação do sistema, sem emoções e guiado pela lógica fria das estatísticas.

Quando reassume o lado humano Alex Murphy, Robocop se torna o anti-herói marginalizado que usa do seu conhecimento prévio para atacar a mesma sociedade que o criou, em busca de reparar parte do desequilíbrio entre os dois lados da sociedade.     

Realidade: O mundo como um todo está tendo uma guinada para a Direita, seja no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. 

Neste processo, como se percebe mais de perto no Brasil, a lógica dos números dos políticos (Cyber-) vem suplantando o lado humano afetado pelas estatísticas e servindo de justificativa para políticas contra a população desfavorecida (-punk).

O mesmo vem ocorrendo nos Estados Unidos, com mais resistência por lá.  

E aí? Quais outros aspectos da sociedade Cyberpunk de Robocop e outras obras na Literatura e no Cinema de 30 anos atrás você percebe em nosso mundo de hoje? 

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Obrigado pela leitura e até a próxima semana! 

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

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Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

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